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Vivi a minha infância em Moçambique, rodeado de uma natureza alegre e intensa porque viva, colorida e por vezes assustadora. Ao meu redor existiam seres humanos com diversas cores de pele, textura de cabelo, e cultura que me enchiam de curiosidade; aves multicolores despertavam-me com seus cânticos contagiantes de alegria; flores de cores garridas e perfumes inebriantes convidavam-me a tocar-lhes ao de leve para não danificar as suas delicadas estruturas; relâmpagos enormes riscando irregularmente o céu escuro, seguidos de trovões enchiam-me de pavor; aguaceiros que mais pareciam milhares de torneiras abertas em simultâneo, descarregavam suas torrentes sobre as frágeis telhas da nossa casita; miríades de estrelas, iluminando as noites escuras, convidavam-me a contá-las, desistia por cansaço e dores de pescoço; o luar sereno das noites de verão desafiava-me a dormir ao relento, não fossem os mosquitos; o nascer do Sol e o seu acaso idílicos, calavam-me de pasmo por tanta beleza concentrada; uma mãe repleta de amor fazendo das tripas coração para que nada de essencial faltasse aos seus queridos filhinhos – mestre nas lides de bem educar; um pai trabalhador, honrado nos seus compromissos, mas quezilento e arrevesado. Teimando educar os filhos apenas no trabalho, no estudo e no respeito cego pela religião católica. Nada de brincadeira… não havia tempo para sermos crianças… Mas, felizmente, não lhe dei ouvidos, brinquei. Embora, a minha pele tenha arcado com as consequências… umas vezes mais justas do que outras.
Ora, esta amálgama de que me vira rodeado despertou em mim uma série de sentimentos que me levaram a questionar, a tentar compreender. O que eram as estrelas que via no firmamento e a que distâncias estariam? O que era a Lua e por que diziam que lá estava um homem solitário com uma forquilha às costas – e eu via a sua imagem…? O que eram os relâmpagos e os trovões? Por que tinham as flores tanta cor e perfume? Por que cantavam as aves e como viviam?... De tantos porquês se rodeou a minha infância…
Às minhas perguntas, o meu pai respondia com o que a tradição lhe ensinara: as estrelas eram coisas criadas por Deus, e não as devíamos apontar pois fazia mal; a Lua era o local onde Deus tinha colocado aquele homem mau… o tal da forquilha; os relâmpagos e os trovões eram Deus a ralhar com os homens, pelas suas maldades; as flores, os pássaros e tudo o mais, eram assim porque Deus os criara dessa forma.
Deveria respeitar o pai, a mãe, os adultos, os polícias, o Sr. Padre e, sobretudo, respeitar a Deus, se não queria ser castigado!
Mas, as suas respostas em vez de serenarem a minha curiosidade, ainda complicaram a situação. Não as compreendia por inverosímeis e pior, para mal dos meus pecados, também não compreendia Deus, os milagres… Estava cada vez mais confuso!
Hoje compreendo que, não entender o que me rodeava, foi o mote para passar a vida em busca de respostas…
Entrevista do escritor Augusto Carlos
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